06
Jul 11

 

 

 

Escrevi este conto para participar num passatempo do site: www.eurogamer.pt.

Valeu-me o prémio.

 

 

Chamo-me Tomás e estou no meu local de trabalho num dia pouco movimentado.

O meu patrão está no escritório dele e eu continuo no front-office, com sorriso para as pessoas que passam pela porta, mas insistem em não entrar.

Decidi navegar no mundo da Internet. Se o meu patrão descobre que estou na Internet em sites que ele acha que não devem ser vistos no local de trabalho, é meio caminho andado para me perturbar o juízo, ainda mais… Agora que estou divorciado tive que, praticamente que começar a minha vida do zero… Praticamente apenas fiquei com a casa, pois a minha ex-mulher é juíza, logo não terá dificuldades em arranjar outra, e com a minha Playstation 3; sendo esta, muito provavelmente, a razão do meu divórcio.

Decidi, depois de ver a minha conta de correio electrónico, ir para os meus sites preferidos. O primeiro que me aparece na lista dos favoritos é o site português da Eurogamer. Depois de largar alguns comentários, senti a necessidade de beber um café, que será o meu primeiro deste dia, acompanhado de um cigarro pensante.

 

“Chefe”, chamei, “dá para ir beber um cafezinho?” – perguntei, sabendo perfeitamente que a resposta seria positiva.

Da loja onde trabalho até ao café são cerca de 100 metros, onde passo por um pequeno largo, onde diariamente estão um grupo (razoável) de reformados a jogar ao jogo da pataca. O objectivo do jogo é aproximar umas esferas de metal, do tamanho de bolas de snooker, o mais perto possível de outra bola mais pequena que terá o tamanho comparável às bolas de matraquilhos. Este café fica no rés-do-chão de uma pensão, apesar de o gerente ficar ofendido quando dizemos que é uma pensão: “É um hotel, e de três estrelas!”, é a resposta matemática.

«Na volta como também um pastel de nata», pensei, tendo perfeita consciência de que não deveria, não só pelo excesso de peso que aos poucos vai dando má forma, como que neste momento cada tostão poupado seria importante. Tenho casa para pagar, tenho que comer todos os dias e como se não bastasse, fumo.

 

Estava ainda a atravessar o largo, tiro do bolso um cigarro L&M vermelho onde o ponho directamente na boca, acendo um fósforo Quinas Forte. No momento em que acendi o fósforo e a chama se expandia numa velocidade vertiginosa onde acalma quando acaba de queimar o fósforo, lutando para se manter viva enquanto consome o palito; eis que olhei para o chão e vejo num flyer publicitário. Nele, apenas via o título e uma capa de um jogo.

A capa do jogo era hipnotizante. Tinha o protagonista com um ar determinado, mas ao mesmo tempo sofrido; disponha de uma grande cicatriz no seu rosto. O seu braço encontra-se semi-flectido para a frente como se me quisesse afastar, mostrava umas tatuagens que quis tentar imediatamente perceber o seu significado. Não consegui. A sua mão largava uma forte descarga eléctrica. Era linda. Não conseguia parar de olhar para o flyer, nomeadamente para o Cole.

O título era claro na capa do jogo: inFAMOUS2, Special Edition. Lembro-me perfeitamente que tinha jogado ao inFAMOUS e terminei-o por 3 vezes: Uma acabei a seguir o bom caminho, da segunda vez escolhi ser o vilão do jogo e a terceira segui de novo o caminho da salvação da cidade, tentando completar todos os troféus.

 

A chama do fósforo queimou-me os dedos que seguravam o palito. Isto fez-me acordar um bocado do momento em que não me encontrava em sintonia com a realidade. Acendi outro fósforo acendi o cigarro e pus-me a caminho do estabelecimento que hoje me iriam servir um café. Já me tinha esquecido da vontade de comer um pastel de nata.

Uns passos a frente, enquanto expelia o fumo lentamente da boca e este me cobria a face como uma cortina de fumo, como por instinto voltei a olhar para o flyer. Meti o cigarro na boca. Estava agora a segurar no flyer com as duas mãos, parei e pensei: «Parece mesmo que o Cole me está a afastar». No momento que eu reparei, senti o meu coração a bater como uma bateria descontrolada. Senti a minha boca a abrir-se com o espanto, o cigarro caiu lentamente. Vi na imagem e reparei que atrás do Cole estava um edifício. «O Cole estava a afastar-me do Hotel!» e ainda mal tinha acabado de ter este pensamento, ouvira uma enorme explosão vinda do café, aquele para onde me dirigia.

Fiquei apático. Não era supersticioso, nunca, e muito menos acreditava em sorte ou coincidências. No entanto, fui claramente salvo por um flyer publicitário. Ainda no chão, pus o flyer no bolso da camisa branca que tinha vestido. Levantei-me o mais rápido que pude. Aos poucos, várias pessoas aproximavam-se do local da explosão. Eu era certamente a única pessoa com menos de 60 anos desta população, e tenho 33 anos. Silêncio.

 

Quase como de repente, ouviu-se um grito ensurdecedor. Estava gente dentro do café e estava em sofrimento. A porta do estabelecimento estava obstruída. Com a explosão, a máquina do tabaco tapou a entrada e consequentemente a única saída. O fumo saia pelo espaço que tinha para esse efeito.

Os gritos não me deixaram pensar. Estava paralisado. Ainda estava a pensar no facto de ter sido salvo pelo meu vício de jogar e facto de uma simples capa de um jogo ser tão hipnotizadora. Peguei no flyer e voltei a olhar para ele. Cole não parava de olhar para mim. Era como se me estivesse a dizer: “Não aprendes-te nada comigo? Que estás ainda aqui a fazer”. Recordei-me num milésimo de segundo que Cole, no primeiro inFAMOUS quando escolhemos o lado da população da cidade, é capaz de tudo para salvar uma vida.

Nesse mesmo momento, deixei cair o flyer para o chão e corri para a entrada do café. Provavelmente o Hotel estava vazio. Só tinha visto o gerente que tinha saído para ver.

 

Encontrei forças onde elas não existiam. Usei a força do meu corpo para empurrar a máquina do tabaco, a fim de desobstruir a passagem. Os gritos não paravam de ecoar nos meus ouvidos. Era doloroso ouvir! Estava muito calor. Tentava empurrar com o ombro e a máquina não se mexia um centímetro. «A minha camisa está a derreter no meu braço?». Estava a entrar em pânico, mas não estava pronto para desistir... Eu era para estar lá dentro.

No momento em que sentia a minha força a enfraquecer, olhei para trás de mim. O grupo de pessoas que se foi juntando, estava a olhar para o flyer que me tinha salvado. A minha força estava num estado de escassez, mas não conseguia desistir. Cole não saia da minha cabeça.

Foi quando de repente, quase que em coro, o grupo de pessoas, onde todas elas pareciam possuídas, correram na minha direcção. Sorte minha que percebi logo que não queriam nada comigo, mas sim ajudar a tentar entrar dentro do café. Os gritos não cessavam. A situação era melancolicamente emocionante e assustadora. Senti uma lágrima a descer-me do rosto. Os gritos não paravam. Todavia, apercebi-me que era muito bom sinal os gritos continuarem. Significava que a(s) pessoa(s) continuava(m) viva(s). Encostei também a perna à máquina do tabaco para ajudar a dar força. Senti o meu maço de cigarros no bolso das calças e pensei “O tabaco mata, mas não tapando a saída de um sítio em chamas!”

Num último suspiro, todos os intervenientes usaram e abusaram da força que tinham, juntamente comigo e, finalmente, a máquina cedeu. Não como queríamos, que seria movê-la, mas caiu para dentro. Felizmente não caiu em cima de ninguém, não tornando pior a cura que o soneto. Só eu entrei no espaço que até agora se encontrava inviolável.

 

Reparei de imediato que a explosão tinha vindo da cozinha. Felizmente estava apenas uma pessoa no estabelecimento, a menina que nos costuma atender e esta não tinha qualquer ferimento. No momento da explosão estava a limpar a televisão, em cima de uma cadeira, onde caiu para o chão. Não passou de um grande susto onde entrou mesmo em pânico. Já quase não havia chamas, havia apenas muito fumo e estava muito calor. Ainda dentro do café, olhei para a máquina do tabaco que jazia no chão, tirei o meu maço do bolso, juntamente com a caixa de fósforos, e deitei ao lixo.

Aproximei-me dela. Sei que ela se chama Beatriz, pois sou cliente assíduo e ela era minha amiga. Tínhamos todos os dias dois dedos de conversa e aos poucos a amizade foi-se fermentando. Ela abraçou-me logo que pôde. Senti-me embaraçado e corado. Levantei-a e levei-a ao colo até à saída. O gerente do Hotel disse-me que já tinha chamado os bombeiros.

“Estás bem?”, perguntei à Beatriz. Ela olhou para mim com aqueles olhos cor de mel. Percebi que sim, e que se sentia envergonhada por ter gritado tanto, quando no entanto não se passava quase nada. Ela abraçou-me, apertando-me forte o pescoço. Timidamente, disse-me ao ouvido.

“Ainda bem que foste tu que me salvaste.” 

 

Publicado Por ChadGrey às 15:34
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2 comentários:
A tua criatividade surpreende... e muito! A mistura da realidade e da ficção... o que será ficção...?
Parabéns!!
Amy Rose a 14 de Setembro de 2011 às 22:11

Obrigado!
Ainda há pouco tempo estava a pensar que já estava na hora de escrever outro conto, mas preciso de temas ou "palavras-chave" para começar...
Alguma ideia??
ChadGrey a 15 de Setembro de 2011 às 13:31

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